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Brasília 28 de novembro de 2022

Sistemas Agroflorestais

INTRODUÇÃO

          A implantação de sistemas agroflorestais (SAF) como estratégia de formação das Reservas Legais busca diminuir os conflitos entre as normas ambientais vigentes e proporcionar a viabilidade socioeconômica da pequena agricultura familiar.

          Construídos a partir do envolvimento social, os sistemas sustentáveis de produção agroflorestal, deverão ter como base a agroecologia e os sistemas de adubação verde, tecnologias compatíveis às características ambientais do local e ao uso do recurso hídrico da bacia para o abastecimento público. As tecnologias empregadas na implantação dos SAFs deverão ser desenvolvidas, divulgadas e transferidas para os pequenos produtores da bacia de forma a reverterem-se em práticas voltadas à recuperação de áreas degradadas da bacia mantendo-se a qualidade da água no Lago Descoberto.

          Numa seqüência de ações, após a implantação dos SAF e visando à viabilidade socioeconômica da pequena agricultura familiar, o projeto deverá buscar junto aos parceiros a orientação para estabelecimento de planos de ação para incremento da renda familiar e dos tipos de produção. Avaliar a sua representatividade sociocultural e econômica no DF, a tecnologia de mercado aplicada, além das formas de inserção no mercado local, conforme desenvolvimento dos modelos agroflorestais estabelecidos.

          Os SAF se apresentam como forma de restauração das reservas legais das propriedades por meio da sensibilização do pequeno proprietário rural ocupante da bacia hidrográfica do Lago Descoberto para mudança de atitude sobre a proteção e conservação das águas e das florestas. Representa uma maneira de diminuir os conflitos entre as normas ambientais vigentes e a necessidade de viabilizar socioeconomicamente os agricultores familiares e pequenos produtores patronais presentes nesta bacia.

          Sistemas agroflorestais ou agroflorestas são combinações de elementos arbóreos com herbáceos e/ou animais organizados no espaço e no tempo. Este conceito contempla a maioria dos desenhos de sistemas agroflorestais.

          Porém, ainda podemos separar os sistemas agroflorestais em SAF simples também chamados de consórcios agroflorestais e SAF complexos também chamados de sucessionais biodiversos.

          As agroflorestas são sistemas de produção muito diferentes dos sistemas convencionais baseados na monocultura, dependência externa, principalmente de agroquímicos, praticados por grande parte dos agricultores da bacia do Descoberto. Devido a isto, para permitir uma harmoniosa abordagem com os agricultores, devem-se utilizar metodologias de extensão rural com forte alicerce construtivista, de participação, elevada valorização dos saberes e cultura local num processo de soma, enriquecimento e não de absoluta desconstrução.

          Construídos a partir do envolvimento social e dos princípios agroecológicos, os sistemas sustentáveis de produção agroflorestal deverão ter como base a produção de alimentos integrada com o plantio de espécies arbóreas e arbustivas, a cobertura do solo proveniente dos adubos verdes, palhadas, galhos, gravetos e restos de podas em geral, a sucessão vegetativa e o aumento da biodiversidade. Essa base tem como finalidade garantir um processo com elevado grau de auto-suficiência em termos de fertilidade do solo, equilíbrio de populações de artrópodes garantindo a independência em relação ao uso de agrotóxicos.

          Os sistemas agroflorestais podem trazer grandes benefícios do ponto de vista econômico, ambiental e social para a região do Rio Descoberto tais como: diversidade de alimentos produzidos, plantas medicinais e ornamentais, além de serviços como sombra, quebra-ventos, embelezamento da paisagem, abrigo e fonte de alimentos para a fauna, constituição dos corredores ecológicos, conservação das espécies vegetais e animais nativas do cerrado, conservação da qualidade e aumento da quantidade de água do Lago do Descoberto, estímulo às atividades de educação ambiental, dentre outros. As tecnologias empregadas na implantação dos SAF deverão ser construídas e divulgadas para a maior parte dos pequenos produtores da bacia de forma a motivar a adoção de práticas voltadas à recuperação de áreas degradadas e constituição das reservas legais da bacia mantendo-se a qualidade da água no Lago Descoberto.

          Numa seqüência de ações, após a implantação dos sistemas e visando à viabilidade socioeconômica da agricultura familiar, o projeto deverá buscar junto a outros parceiros a orientação para estabelecimento de planos de ação para incremento da renda familiar e dos tipos de produção. Será necessário considerar as atividades já em andamento nas propriedades a serem trabalhadas já que a implementação de SAF requer nos primeiros dois anos de implantação uma maior dedicação e destinação de mão-de-obra por parte dos agricultores.

          Esta harmonização das atividades atuais dos agricultores, principalmente a produção de frutas, flores e hortaliças com as novas atividades a serem propostas para a constituição das áreas de reserva legal terá que acontecer a partir de um diagnóstico individual e detalhado que proporcionará o referencial para intensificação ou complexificação de tais atividades.

          Desenho de sistemas agroflorestais – São inúmeras as maneiras de se desenhar sistemas agroflorestais. O desenho de cada SAF depende de fatores tais como: vocação e base de conhecimento dos agricultores, intensidade e qualidade da capacitação a ser proporcionada, seus interesses econômicos, condições edafo-climáticas, exigências legais, nível de degradação ambiental, dentre outras. Desta maneira, podem-se desenhar sistemas mais simples ou mais complexos, mais ricos em espécies nativas ou em espécies exóticas ou em determinada frutífera de interesse comercial, espécies madeireiras, dentre várias combinações.

          De qualquer maneira, a consorciação de diferentes espécies vegetais em um mesmo agroecossistema exige um cuidadoso planejamento da distribuição espacial das plantas e sua evolução no tempo. Este planejamento leva em conta a necessidade de luz, o porte, a forma do sistema radicular e o comportamento de cada espécie de acordo com as condições edafo-climáticas locais. São descritas a seguir as possibilidades para implantar sistemas agroflorestais.

          Sistemas agroflorestais simples ou consórcios agroflorestais - Neste tipo de sistema, as espécies nativas e/ou exóticas são plantadas em consórcio de 3 a 10 espécies vegetais com espaçamentos semelhantes aos considerados para sistemas de monocultivo, embora contenham, em menor grau, elementos e princípios ecológicos que orientem sua implantação como a cooperação e sucessão vegetativa. Podem ser propostos para situações de início de transição agroecológica em que o agricultor tenha dificuldades de incorporar em sua prática os novos conceitos de ecologia de comunidades de plantas ou mesmo dificuldades operacionais. Embora mais simples, podem ser bastante úteis para trabalhos de reabilitação ambiental e constituição de reserva legal.

          Devem ser planejados para que haja cooperação entre as espécies, melhor aproveitamento da irrigação, da adubação, da mão-de-obra e dos espaços disponíveis. Os cultivos agrícolas e as árvores implantadas se sucedem no tempo. No primeiro ano são realizados plantios de culturas anuais (milho, feijão, mandioca, hortaliças) intercaladas com mudas de banana, mamão, árvores (abacate, manga, graviola, nativas) e adubos verdes.

          O plantio das árvores pode ser feito por sementes. No segundo e terceiro anos faz-se uma rotação de culturas agrícolas anuais e adubos verdes, realizam-se colheitas e venda de produtos para gerar receita enquanto as árvores crescem. A partir do 3° ano, com a formação de um bosque jovem, o agricultor pode plantar outras espécies de árvores que crescem bem na sombra, realizar podas abrindo espaço para maior incidência de luz no sistema e plantar outras espécies, sem prejuízo da preservação das espécies de interesse no sistema (as espécies nativas, por exemplo) ou apenas aguardar o crescimento das árvores. Nas figuras 4, 5 e 6 pode ser visualizado por ângulos externos e interno um sistema agroflorestal simples implantado há 18 meses composto de 4 espécies de interesse comercial (banana prata, café, inhame, mandioca).

          Na sombra destas espécies de interesse comercial foram plantadas mudas de ipê e poderiam ter sido plantadas inúmeras espécies nativas de interesse para reabilitação ambiental, que sob proteção das primeiras, se desenvolveriam confortavelmente e com vigor. Em trabalhos de pesquisa e extensão rural constatou-se maior pegamento de mudas e sementes, melhor desenvolvimento e longevidade das espécies nativas com a técnica do agroflorestamento quando comparada aos plantios realizados a pleno sol sem usar plantas de cobertura e sem proteção de espécies vegetais chamadas de “criadoras”.

          Sistemas Agroflorestais complexos ou sucessionais biodiversos – São sistemas agroflorestais cultivados com elevado número de espécies vegetais, normalmente mais de 50 num mesmo módulo, contendo espécies nativas e exóticas, arbóreas, arbustivas e rasteiras compondo a biodiversidade produtiva e funcional, plantadas em alta densidade de sementes, estacas e mudas. Neste caso, há um maior e intensivo aproveitamento das interações ecológicas entre os seres vivos presentes no sistema.

          O manejo da vegetação, com destaque às podas regulares, é apontado como responsável por uma condição sucessional mais avançada com maior diversidade e quantidade de vida, maior ciclagem dos nutrientes e mais rápido desenvolvimento natural da fertilidade do solo com elevação dos níveis de fósforo, saturação de bases, e matéria orgânica (Peneireiro, 1999). O sistema se destaca também pelo elevado potencial de produção de biomassa, alimentos e renda (Santos, 2005).

          As agroflorestas ou sistemas agroflorestais sucessionais biodiversos são inspirados na dinâmica das florestas, onde a biodiversidade e a sucessão vegetativa possibilitam o maior aproveitamento dos recursos naturais (luz, solo, água e nutrientes) em função da presença de diferentes espécies de plantas dentro de uma determinada área com a máxima manutenção e conservação possível destes recursos. Este planejamento leva em conta a necessidade de luz, o porte, a forma do sistema radicular e o comportamento de cada espécie de acordo com as condições edafo-climáticas locais. Envolve também conhecimento sobre a intensidade de cooperação e efeitos de espécies-chave em relação às demais espécies que comporão o sistema.

          No desenho do sistema, o espaço físico é planejado tanto horizontalmente, considerando a distância entre as linhas de plantas e a quantidade de sementes ou mudas por metro linear de plantio, quanto verticalmente, considerando o estrato ou altura potencial que cada espécie pode ocupar mesmo crescendo lado a lado.

          Portanto, uma boa implantação e manejo de sistemas agroflorestais demandam conhecimento de ecologia, incluindo a sucessão ecológica, fitossociologia e fenologia e biologia reprodutiva das espécies de interesse, o que pode ser construído a partir da referência de inúmeras experiências exitosas envolvendo agricultores familiares (Souza, 2006) e da soma de conhecimento dos agricultores tradicionais participantes do projeto, dos pesquisadores e extensionistas com experiência no tema.

          Apesar da relativa complexidade que envolve sua implantação e manejo, é crescente o número de agricultores que adotam este modelo de sistema agroflorestal em todo o Brasil e no Distrito Federal, graças à compreensão crescente sobre sua sustentabilidade, longevidade, independência em relação a insumos externos.

          No DF, temos diversas experiências deste tipo de sistema, as quais variam de 1 a 9 anos de funcionamento, tendo demonstrado sua utilidade para a conservação ambiental em harmonia com a produção de alimentos, bem como sua vocação como atividade econômica (Figuras 7, 8 e 9).

          Na região do Lago do Descoberto são muito comuns os pomares comerciais. Para estes casos, os SAF têm se apresentado como importante opção de enriquecimento do espaço entre as linhas de plantio das espécies frutíferas, propiciando aumento e diversificação da produção de alimentos numa mesma área, maior grau de conservação e fertilização natural do solo, fixação de carbono, dentre outras vantagens ambientais, econômicas e sociais. As figuras 10, 11 e 12 mostram um sistema agroflorestal em formação em meio às entrelinhas de pomares de tangerina Ponkan.

          O desenho do sistema agroflorestal a ser implantado em cada propriedade dependerá de fatores diversos, podendo ser construído a partir do diagnóstico inicial e de forma dialogada com cada agricultor. Apenas como referência, a figura 13 mostra o desenho de uma agrofloresta implantada em Brasília-DF (Armando et. al., 2003).

 


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